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Por Arlindo da Silva Lourenço

Olá colegas, tudo bem? É minha primeira participação por aqui e, nesse sentido, gostaria de, em primeiro lugar, agradecer ao SIFUSPESP pela oportunidade que me foi gentilmente cedida e, em segundo lugar, desejar que essa participação possa ser de alguma valia para todas e todos vocês que desejam conhecer mais sobre temas atuais e que dizem respeito a vida coletiva (trabalho, família, saúde, cidades, entre outros temas).

O meu primeiro tema nesta coluna é a eleição que se aproxima no Brasil e que colocará gestoras e gestores nas prefeituras do país e vereadoras e vereadores nas câmaras municipais respectivas. O Brasil tem 5570 municípios; destes, em 117, a eleição se encerrará, com certeza, já no próximo dia 15 de novembro, já que apresentam candidatura única à prefeito.

Dados da Confederação Nacional dos Municípios aponta que, dos demais municípios, 37% terão embates entre duas candidaturas apenas e, nos demais, candidaturas múltiplas, como é o caso de São Paulo, por exemplo, onde 14 candidatas e candidatos disputam a badalada prefeitura da megalópole que não dorme. Nesta mesma cidade, para se ter uma ideia da dimensão que é uma eleição para a sua câmara de vereadores, 1.997 pedidos de registros de candidaturas foram feitos ao Tribunal Superior Eleitoral neste ano, um aumento de 51,8% em relação à eleição anterior, de 2016. Tudo isso para concorrer às 55 cadeiras de vereadores/as.

Longe de ficar se debatendo com os dados estatísticos, e mais longe ainda de arriscar previsões eleitorais, gostaria de perguntar a vocês se a eleição que se avizinha os enche de esperança de dias melhores? Claro que aqueles e daquelas que concorrerão a cargos eletivos em 2020 e, ainda, aquelas pessoas que militam em campos específicos e contam com candidatos para alavancar seus pleitos devem estar esperançados/as.

Faz tempo que analista políticos, filósofos e pesquisadores vêm trazendo elementos teórico-prático-estatísticos que apontam para grandes desconfianças da população em geral em relação ao mundo da política partidária e eletiva. Também não quero fazer aqui o papel de advogado do diabo e pregar pela ausência civil na próxima eleição. A sensação de que entra eleição-sai eleição e pouco se faz é quase uma unanimidade; aliás, quem de nós se lembra de quem foram os candidatos em que votou para governador, deputado estadual e deputado federal nas últimas eleições majoritárias, não é mesmo?

Temos uma herança política clientelista, hierarquizada e fisiológica, no sentido de que, passados aqueles momentos anteriores das eleições, quando os/as candidatos/as se aproximam de seu eleitorado prometendo as mais diferentes coisas e, passadas as primeiras semanas logo após as eleições, quase não cobramos aqueles e aquelas que ajudamos a eleger.

Para alguns autores, inclusive, e menciono de passagem por aqui, Slavoj Sizek,  filósofo esloveno nascido na antiga Iugoslávia, nossas democracias poderia ser denominadas pseudodemocracias, no sentido de que guardam pouca relação com a concepção clássica do termo (governo do povo, pelo povo e para o povo e, ainda, poder do povo) e servem, basicamente, para manter uma lógica de dominação camuflada de participação cidadã. Novamente, não prego aqui a desobediência civil pura e simples, mas, sim, que reflitamos sobre as questões que encobrem e falseiam nossa existência pretensamente cidadã.

Outro autor que considero importante para esta nossa primeira reflexão é Giorgio  Agamben, para quem os “cidadãos produtores e consumidores das sociedades contemporâneas não sabem do que estão falando quando dizem que vivem em sociedades democráticas” (ONISTO e BAZANELLA, 2018, p. 6), antevendo uma atitude bastante passiva dos cidadãos e das cidadãs da Pólis, cujo dispositivo democrático básico e, talvez, único, seja o da eleição “livre”. Talvez seja exatamente por isso que temos a sensação de que só somos ouvidos naquele pequeno momento antes das eleições, quando candidatos e candidatas vêm até nós cheios de uma pretensa fraternidade e nos pedem encarecidamente nosso voto.

Aliás, ouvir e não falar ou discursar, já indicaria também a nossa passividade em relação aos rumos da nossa cidade, do nosso Estado e da nossa nação. Para não me estender e acreditando que falaremos mais disto daqui a pouco, gostaria de solicitar a você que, nesta eleição, muito mais do que a reflexão sobre a vida pregressa de candidatos e candidatas a cargos públicos, seja capaz de romper a lógica dessa passividade que nos estonteia. Primeiro, cobrando diuturnamente do/a candidato/a eleito, que as promessas de campanha sejam cumpridas. E, segundo, que procure formas de participação na vida cidadã que ultrapasse esse momento mais comezinho das eleições: participe da grupos de amigos/as; vizinhos solidários/as; sociedade amigos do bairro; conselhos populares; comunidades de rua; comissões diversas; partidos políticos, sindicatos; enfim, onde houver participação e possibilidade de ação, esteja lá; ouça e seja ouvido. Exerça o direito à representação popular onde quer que seja ou esteja.

Fundamentalmente, acredite que uma outra sociedade é possível. Um grande poeta recentemente falecido – Eduardo Galeano, disse certa vez que “este mundo de merda está grávido de outro”; este é um mundo mal nascido, infame, mas haveria outro, diferente, pronto para nascer. Quem sabe quem fará o parto desse novo mundo? Talvez, nós!!!!

Saudações a todas e todos.

Um forte abraço e até o próximo encontro.


Para ler (ou ver) mais:

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Tradução de Henrique Burigo. – Belo Horizonte UFMG, 2002.
AGAMBEN, Giorgio. Como a obsessão por segurança muda a democracia. Jornal Le Monde Diplomatique Brasil, 06 jan. 2014. Disponível em: https://diplomatique.org.br/como-a-obsessao-por-seguranca-muda-a-democracia/.
Café com Sociologia. Eduardo Galeano: “O entusiasmo é uma vitamina E – de entusiasmo”. Disponível em: https://cafecomsociologia.com/eduardo-galeano-o-entusiasmo-e-uma/.
ONISTO, Felipe e BAZANELLA, Sandro Luiz. O conceito de democracia em Giorgio Agamben e Slavoj Žižek Travessias, Cascavel, v. 12, n. 2, p. 4 – 27, maio/ago. 2018.
ŽIŽEK, Slavoj. O casamento entre democracia e capitalismo acabou. (2011). Disponível em: Disponível em: https://revistaforum.com.br/blogs/rodrigovianna/brodrigovianna-o-casamento-entre-democracia-e-capitalismo-acabou/.
ŽIŽEK, Slavoj. “Nosso inimigo é a ilusão democrática”. (2011). Disponível para download em: https://oficinadesociologia.blogspot.com/2011/11/o-nosso-inimigo-e-ilusao-democratica.html.

Arlindo da Silva Lourenço é doutor em Psicologia e autor do livro “O Espaço de Vida do Agente de Segurança Penitenciária no Cárcere”