Marc Souza

Agente penitenciário, escritor e Diretor do Sifuspesp
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Por Marc Souza - agente de segurança penitenciária, diretor de base do Sifuspesp e escritor

 

Uma das poucas profissões pelas quais os profissionais vivem 24 horas por dia é a profissão de agente penitenciário.

Primeiro, porque um agente penitenciário sempre tem que estar a postos para qualquer eventualidade que possa ocorrer no seu local de trabalho, o que faz com que o mesmo seja convocado a qualquer hora do dia ou da noite.

Segundo, porque não basta tirar o uniforme. Um agente penitenciário é agente penitenciário 24 horas por dia. O perigo de exercer a função de agente penitenciário não está somente nas 12 horas que o mesmo presta serviços dentro das unidades prisionais, onde é refém da angústia, do risco de trabalhar com centenas e até de milhares de presos. Mas, fora dos muros dos presídios o agente continua sendo refém da mesma angústia.

Para um agente penitenciário, o perigo sempre está à espreita, afinal ele também é refém fora do local de trabalho, seja no caminho para casa, nos bancos, no supermercado ou nos momentos de lazer com a família.

Ser agente penitenciário é colocar a vida em risco 24 horas por dia, 365 dias no ano. É viver se equilibrando na fina linha do destino onde de um lado está a vida e do outro...

Era um dia comum, um dia, como outro qualquer. De madrugada, ele sai para o trabalho, de onde retornará apenas no início da noite.

Antes de sair de casa, beija sua esposa e os filhos levemente, para não acordá-los. E parte.

Não caminha nem por uma quadra quando uma moto com duas pessoas passa devagar.

Ao ver os olhos do carona ele sente seu sangue gelar.

Não sabe o que pensar, tampouco tem noção do que fazer.

De repente um calafrio sobe pela sua espinha deixando eriçados todos os pelos do seu corpo. Seus batimentos cardíacos aumentam de tal maneira que parece que o seu coração irá sair pela boca.

Sabe que há algo errado, já sentiu isso antes, e a sensação não é boa, algo está para acontecer. Algo muito ruim.

Logo à frente, o motociclista retorna. Ao ver tal atitude ele pensa em correr, mas sabe que não tem para onde correr. Procura esconder o rosto.

São cinco da manhã. A rua está praticamente deserta, não há ninguém além dele e das pessoas da motocicleta. Ele sabe que, se tentar voltar para a casa, poderá colocar a vida dos seus entes queridos em risco, então resolve continuar o seu caminho. Como se nada de anormal estivesse acontecendo.

O motociclista passa por ele bem devagar. Por mais que tente evitar, a troca de olhares é evidente, e mais uma vez ele sente a espinha gelar.

Sem alternativas, o agente continua o seu caminho sem sequer olhar para trás.

Ele anda dez, vinte, trinta metros e tudo parece ter voltado ao normal,

Aos poucos ele vai se acalmando. Logo, seus batimentos cardíacos também vão desacelerando.

O pior já passou, pensa.

Aliviado, crê que tudo não passou de má impressão, do resultado de anos vivendo no limite do stress por ameaças e terrorismo psicológico dentro e fora do local de trabalho, por várias tragédias ocorridas com companheiros de trabalho que ficaram marcadas em sua memória.

Então, uma pessoa lhe chama pelo nome.

Ao virar-se, vê novamente aquele olhar, mas desta vez este olhar não lhe causa frio na espinha ou qualquer tipo de sensação pelo corpo.

Não há tempo, pois o agente é alvejado por vários tiros de forma fria e covarde. Acusado de pecados nunca realizados, condenado por crimes nunca cometidos.

Essa história não é ficção. Anualmente, vários profissionais do sistema prisional do país vivem esta situação e poucos sobrevivem para contar a história. A grande maioria é assassinada fria e brutalmente ao ser reconhecida como parte do quadro de funcionários do sistema penitenciário em qualquer lugar que estejam. Pessoas marcadas pelo simples fato de exercerem uma profissão.

Pessoas que brutalmente se transformam em mais uma nota no obituário, pelo simples fato de serem agentes penitenciários.


Marc Souza

Escritor

Diretor Sifuspesp

 

Por Marc Souza, Agente Penitenciário e Escritor - Diretor do Sifuspesp 

 

Naquele momento, um filme passou pela sua cabeça. Um filme, que, aparentemente, chegava ao fim.

É interessante que, em segundos, toda a sua vida foi passada a limpo. Suas alegrias e decepções. Seus medos e suas angústias.

De repente, um dos seus maiores medos estava se tornando realidade: Sair de casa para o trabalho, e, não retornar.

Foram anos de medo e angústia, anos orando, pedindo a Deus para que lhe protegesse, para que, lhe livrasse daquela situação que estava vivendo naquele momento.

O que fazer naquela situação? Entregar-se passivamente, tal qual um animal diante do seu algoz, ou lutar com todas as forças buscando meios de sobreviver diante daquela situação em que a morte, parecia-lhe, era iminente?

A rebelião estava instalada.

Os presos queriam que seus direitos fossem respeitados: Melhores condições para o cumprimento da pena; Fim da superpopulação carcerária; Agilidade nos julgamentos de processos e concessão de benefícios; Transferência para outras unidades prisionais.

Quanto a ele, estava ali, abandonado à própria sorte, jogado no interior de uma cela suja, sentindo-se um boi de piranha, sangrando até a morte. Pego de refém quando fora liberar os sentenciados para o banho de sol, fora ameaçado, humilhado, agredido. Muito agredido. Seu corpo doía tanto que imaginava que aquele seria o seu fim.

Vez ou outra, um sentenciado entrava na cela, e, com estiletes improvisados ameaçavam a sua vida. Passavam o estilete pelo seu pescoço como se fosse cortá-lo, ameaçavam estocadas, chutavam-no, batiam-no. O ódio que vira nos olhos daquelas pessoas deixava-o ainda mais desesperado.

Parecia que ele era o responsável por todas as mazelas que aquelas pessoas estavam vivendo. Era como se ele não quisesse, também, uma unidade prisional sem superlotação, uma unidade prisional com melhores condições de trabalho e sobrevivência aos sentenciados ali recolhidos. Era como se ele fosse o responsável pela morosidade do poder judiciário.

Ouvia do lado de fora da cela, gritos. O medo, era quase palpável, a tensão era insuportável.

Então, sem conseguir evitar, começou a imaginar como seria a sua morte, começou a imaginar a sua família sem ele. Sua esposa. Seu filho.

“Que merda” – pensou. “Por que passar por aquela situação? O que fizera para merecer aquilo tudo?” Sempre fizera o seu trabalho da melhor maneira possível. Sempre foi um exemplo de pessoa e profissional, e agora, estava ali, com a vida por um fio, sendo acusado e responsável, por algo que sequer poderia mudar. Naquele momento ele era a figura do Estado negligenciador. A figura de um sistema omisso, moroso às vezes inerte causador do caos penitenciário que estavam vivendo.

“Será que eles não vêem que também sou vítima desse caos” – pensou, e quase gritou aos quatro ventos, tamanho era o seu desespero. “Será que eles não vêem que eu também sou prejudicado, machucado, marcado por toda esta incapacidade do estado em lidar com esta situação”. “Será que eles não vêem que eu também estou adoecendo e morrendo diante de tamanha negligência”.

Ao fechar os olhos viu seu filho chorar. Chorar a perda do pai. Chorar a perda do seu herói. Então, chorou. Não por ele, mas, pelos seus. Chorou por sua família, sua esposa. Chorou pelo seu filho.

De repente várias pessoas entram na cela em que estava recolhido. Com um estilete artesanal no pescoço ele é retirado da cela, em meio a socos e chutes e amarrado de braços abertos junto à grade da cela como se fosse um escudo humano.

Então...

Então, ele ouve um barulho ensurdecedor seguido de gritos desespero antes de perder os sentidos.

As marcas que tem no corpo, tal qual as dores que sente, praticamente desaparece ao ver o sorriso do seu filho e da sua esposa. Tais marcas e dores não o preocupam mais.

O que de fato o preocupa, são as dores que sente na alma. Dores estas que talvez nunca hão de desaparecer.

Dias depois, ao voltar ao trabalho, nota que nada, nada mudou. E tudo está como antes. Tendo a certeza de que tudo o que viveu, poderá se repetir, e se repetir, e se repetir, e que só resta a ele orar e pedir a Deus para que quando se repetir, não se apresente de forma mais trágica.

 

Por Marc Souza, Agente Penitenciário e Escritor - Diretor do Sifuspesp

 

De repente estamos no nosso derradeiro dia. O último, então...
O que pensaremos? Do que lembraremos?
Dos dias felizes ou dos dias tristes?
O que sentiremos? Alegria? Tristeza? Realização? Decepção?
Será que neste dia teremos aquele sentimento de dever cumprido, ou veremos passar um filme em nossas cabeças onde tudo poderia ter sido diferente?
Será que, realmente, combatemos o bom combate?
Ou fugimos, nos escondemos, deixando o tempo passar, entregando aos outros as responsabilidades que seriam nossas?
Será que fizemos jus as dádivas que recebemos?
Será que fizemos a diferença?
Está semana foi trágica, de repente, a vida de alguns se esvaiu... Pessoas boas, pessoas de bem.
Uma tragédia levou verdadeiros líderes, pessoas que, de fato, fizeram a diferença.
Pessoas que não deixaram a vida passar, assistindo-a pelas janelas de suas casas.
Pessoas que lutaram a favor de uma causa, a favor de uma categoria, em prol de um sonho.
Com certeza em seus últimos momentos pensaram no bem que fizeram. Nas batalhas que venceram, e nas vidas que transformaram e que, ainda, hão de transformar.
Combateram o bom combate e venceram.
Fizeram das dádivas que receberam um sentido para a vida de muitos.
Que sejam exemplo hoje, amanhã e sempre, de que a vida só vale a pena, se for vivida em função de um ideal, a serviço de um sonho. Que a vida só tem sentido se vivermos não só para nós, mas, também, para os nossos irmãos.
Que no último segundo de nossas vidas sejamos como eles e pensemos:
Não foi em vão.
Que assim seja!

 

Por Marc Souza - Agente Penitenciário e Escritor

 

É hoje.

 

Hoje.

Quanto tempo será que se passou?

 

Para mim. Pra mim parece que foi ontem.

 

Ainda sinto o cheiro de sangue. Um cheiro estranho, metálico, cheiro de ferrugem. Ainda ouço os gritos de desespero e de dor. Quando fecho os olhos ainda vejo aquelas imagens.

 

Será que um dia hei de esquecê-las?

 

Será que um dia os pesadelos acabarão?

 

É hoje. É hoje.

 

Não sei se estou preparado. Bem, na verdade, a última coisa que estou é preparado para voltar.

 

Os gritos de desespero me perseguem. Aqueles olhos desesperados insistem em me observar. Eu... Eu não consigo fugir. Eu... Eu não consigo esquecer.

 

Aquelas facas improvisadas, sujas de sangue. De inocentes? De culpados?

 

Aquelas pessoas mortas, estraçalhadas, odiadas.

 

Aqueles jovens vivos, mas... mortos. Mortos por dentro, sem alma, sem coração.

 

Deus? Deus? O que aconteceu naquele dia?

 

Por quê? Por quê? Por quê?

 

É hoje.

 

Hoje tudo voltará ao normal.

 

Mas o que é voltar ao norma?. Será que um dia voltarei ao normal?

 

Será? Será?

 

Foi num dia assim que tudo aconteceu. Um dia comum, normal. Um dia de trabalho.

 

Então de repente o caos se fez presente: A rebelião.

 

Não queria lembrar. Queria esquecer aquele fatídico dia. O pior.

 

Meu Deus!

 

Aqueles gritos. Aqueles olhares desesperados. Aquele choro.

 

Tanto sofrimento. Tanto horror. Quanto terror.

 

Eu... eu não consigo esquecer.

 

Hoje, depois de tanto tempo, sinto o cheiro de sangue, ouço os gritos de pavor. Vejo aqueles jovens.

 

Mesmo depois de tanto tempo, sinto a lâmina daquela faca no meu pescoço, apertando, apertando, apertando, sinto a morte à espreita, me observando.

 

Mesmo depois de tanto tempo, parece que foi ontem.

 

Mas hoje, hoje é um novo dia. Hoje tenho que voltar.

 

Não sei se consigo. Na verdade, acho que não.

 

Meus amigos dizem que nada mudou: A população carcerária aumentou.

 

Depois daquele dia muitos funcionários sequer voltaram ao trabalho.

 

Faltam funcionários, sobram presos e problemas.

 

Quanto a mim? Tenho que voltar, tenho uma família para cuidar. Tenho uma profissão a honrar. Sei que preciso de mais tempo, mas, fazer o quê?

 

Apesar de não estar liberado para o trabalho pelo médico, minha licença foi diminuída, cortada pela metade. O pior, é que um profissional que não me consultou, que sequer me conhece, que sequer sabe pelo que passei foi o responsável por isso. Tenho que trabalhar, preciso do dinheiro. Preciso sobreviver.

 

Sobreviver é o que faço.

 

Sobrevivo aos salários baixos, à falta de condição de trabalho, à superpopulação carcerária. Sobrevivo aos ataques e ameaças de morte e às agressões físicas e verbais.

 

Sobrevivo, simplesmente sobrevivo.

 

E agora, sobrevivo com meus medos e inseguranças causados por uma situação limite à qual vivo exposto.

 

Situação causada pela omissão do Estado que insiste em amontoar pessoas nas cadeias em situações totalmente desumanas, abandonando-as à própria sorte, sujeitas a todos os tipos de doenças e violência. Situação causada por benefícios e processos atrasados, não julgados, amontoados e esquecidos. Situação causada por uma política penitenciária totalmente omissa e inconseqüente.

 

Hoje é o dia.

 

A partir de hoje, no trabalho, não estarei mais só. A partir de hoje estaremos, para sempre, eu e meus fantasmas. Eu e os meus medos. Eu e minhas lembranças.

 

Lembranças que carregarei para sempre. Fantasmas que me farão companhia. Me assombrando e me lembrando a natureza humana. Os gritos de desespero. Os olhos assombrados. As dores sofridas. Tudo isso faz parte de mim agora. É parte de mim agora.

 

É hoje. Hoje estarei de volta.

 

Sem preparo. Sem apoio do governo. Sem condições.

 

Mas, com uma convicção, não foi em vão.

 

Todo o sofrimento que vi e vivi, toda a dor que senti, todo o desespero que presenciei, todo o medo que senti, e que agora fazem parte de mim, me deixaram mais forte.

 

Me fizeram um ser humano melhor.

 

Hoje quando as portas se fecharem às minhas costas, estarão lá, eu e minhas cicatrizes, eu e as minhas dores, eu e a minha vontade de servir à minha comunidade. Mesmo que esta comunidade sequer me conheça. Mesmo que esta comunidade, sequer, me reconheça. Mesma que esta comunidade, sequer imagina o peso de todas as dores que trago no coração.



Marc Souza

 

Agente Penitenciário e Escritor

 

Diretor Sifuspesp