Marc Souza

Agente penitenciário, escritor e Diretor do Sifuspesp
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 Por Marc Souza - agente de segurança penitenciária, diretor de base do Sifuspesp e escritor

 

A culpa é do policial.

Em um país onde a vítima é aquele que mata, rouba e que comete os mais atrozes dos crimes, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde não se respeita os trabalhadores que têm seus direitos cassados na calada noite, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde corruptos desviam milhões, bilhões de reais dos cofres públicos e ainda ficam livres para legislar em causa própria, a culpa sempre será do policial.

Em um país que ignora o rombo aos cofres públicos causados por desvios de verbas e superfaturamento, que ignora as mordomias de uma minoria pagas pelo estado e culpa o trabalhador pela falta de dinheiro nas contas públicas, cassando seus míseros e poucos direitos, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde malas de dinheiro são carregadas na calada da noite. Onde maços de cédulas são amarrados em cuecas e apartamentos são transformados em depósitos de dinheiro sujo, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde o auxílio moradia de poucos é quatro vezes maior que o salário de muitos, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde se desvia dinheiro da merenda, dos remédios da população de baixa renda e sucateia os serviços públicos, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde milhares de pessoas morrem em filas de hospitais esperando atendimento médico, adolescentes saem da escolar sem saber ler nem escrever, trabalhadores ambulantes são presos por exercerem suas funções sem alvarás e traficantes, corruptos, assassinos e ladrões são soltos através decisões judiciais duvidosas, a culpa sempre será do policial.

Em um país onde os órgãos dos direitos humanos transformam bandidos em heróis e heróis em bandidos, a culpa sempre será do policial.

No país da inversão de valores, dos sonegadores, dos mentirosos, dos corruptos e corruptores. No país da desigualdade e da falsa moralidade, a culpa é e sempre será do policial.

 

 

Por Marc Souza - agente de segurança penitenciária, diretor de base do Sifuspesp e escritor

É interessante e às vezes muitos podem nem acreditar, mas não existe nada tão estranho do que o ambiente de uma unidade prisional, seja qual for o modelo ou o perfil dos sentenciados recolhidos. Quando você entra em uma unidade prisional, parece que você está em outro mundo, um universo paralelo, onde o branco nunca é branco e a luz do sol entra com mais dificuldade.

Você pode pintar as paredes nas mais diversas cores e iluminar todo o ambiente, no entanto, parece que a vida, a alegria, não encontra ali, um abrigo seguro.

O excesso de paredes de concreto, a presença ostensiva de grades, cadeados, trancas e o barulho do choque entre ferros deixam o ambiente mais opaco, triste, frio.

Ao entrarmos em uma unidade prisional, parece que somos imersos em sons e sombras únicos que somente nos deixam quando ouvirmos o fechamento da última porta no final do dia de trabalho. Situação na qual vem um alívio. É como sair do inferno para o céu.

E isso não é só no sentido figurado.

Some a este ambiente ignóbil uma hostilidade constante regida por regras próprias muitas destas cruéis. Some isso a ameaças, constantes agressões gratuitas e situações de terror indescritíveis e você verá que o que eu disse é a mais pura verdade.

 

Portanto ao passar em frente a uma unidade prisional, mesmo que somente em seu coração, faça uma reverência àqueles que estão por trás daqueles muros, àqueles que estão sujeitos a todo tipo de violência, em um mundo paralelo, hostil, mas, que mesmo assim dão a vida para proteger o que estão fora daqueles muros.

 

Ao ver aquelas grandes muralhas imagine que apesar de todas as dificuldades encontradas, de toda a hostilidade sofrida, do perigo e medo iminente, por trás daqueles muros frios de concretos existem heróis anônimos que vivem e sofrem o inimaginável. Pessoas aparentemente comuns, que lutam para manter a segurança de uma sociedade que na maioria das vezes os ignora, mas que mesmo assim, sem o reconhecimento devido, não desistem e trabalham para fazer um futuro melhor.

E não se esqueçam jamais que por trás daquelas muralhas existem homens e mulheres dignos de ser chamados HERÓIS.

 

 

Por Marc Souza - agente de segurança penitenciária, diretor de base do Sifuspesp e escritor

 

Este ano não foi fácil para os servidores do sistema prisional do estado de São Paulo. Se não bastasse a superpopulação carcerária que o funcionário é obrigado a enfrentar todos os dias, o déficit funcional, as ameaças de membros das facções criminosas, a violência assistida, as agressões sofridas (físicas e verbais), os assassinatos, a falta de uma política de valorização do servidor, a falta de uma assistência médico-psicológica e o descaso do estado quanto à política salarial que há mais de três anos não dá ao funcionário nem a reposição inflacionária, este ano o funcionários tiveram que conviver com o suicídio de muitos de seus colegas de classe.

Não sou especialista, mas, ouso dizer que há um surto de suicídios entre os profissionais do sistema prisional do estado de São Paulo. Muitos foram os profissionais que, no ano passado, nos deixaram de forma abrupta.

Profissionais que tiveram suas vidas ceifadas pelas próprias mãos, numa atitude de desespero e com certeza de dor insuportável, tão insuportável que os levaram a tomar tal atitude drástica, deixando para trás família, amigos e companheiros de trabalho.

O maior problema encontrado é a inércia do Estado ao tratar deste assunto.

Todos sabem que os funcionários do sistema prisional vivem um ambiente propício para problemas psicológicos e psiquiátricos, que são as maiores causas de suicídio. Afinal estes profissionais vivem diuturnamente pressionados, em ambientes totalmente estressantes e vítimas dos mais variados tipos de violência.

No entanto, mesmo com o alto índice de suicídios no último ano, o estado se cala. Não apresenta um programa concreto de prevenção ao suicídio, não fornece aos seus funcionários uma assistência psicológica ou médica psiquiátrica a fim de coibir e até erradicar casos como estes.

Há de se observar que, se analisarmos friamente, o Estado chega a fomentar indiretamente tais atos. Pois enquanto tivermos esta política carcerária precária, desestruturada e totalmente desorganizada que não cria um mínimo de condições de vida aos apenados, e, por conseguinte, que não dá um mínimo de condições de trabalho aos funcionários, casos como estes hão de se repetir.

Atitudes têm que ser tomadas, e se demanda tempo e dinheiro para reestruturar este sistema falido ao qual os funcionários do sistema penal estão sujeitos. Que sejam criados programas de apoio a estes profissionais que dão a vida pela sua profissão.

É imperativo que algo seja feito urgentemente, antes que mais vidas se percam. Antes que mais famílias sejam destruídas pela leniência de um Estado que joga os cordeiros aos lobos esperando que estes resolvam o problema que ele, o estado, não consegue resolver.  

 

Por Marc Souza - agente de segurança penitenciária, diretor de base do Sifuspesp e escritor

 

Uma das poucas profissões pelas quais os profissionais vivem 24 horas por dia é a profissão de agente penitenciário.

Primeiro, porque um agente penitenciário sempre tem que estar a postos para qualquer eventualidade que possa ocorrer no seu local de trabalho, o que faz com que o mesmo seja convocado a qualquer hora do dia ou da noite.

Segundo, porque não basta tirar o uniforme. Um agente penitenciário é agente penitenciário 24 horas por dia. O perigo de exercer a função de agente penitenciário não está somente nas 12 horas que o mesmo presta serviços dentro das unidades prisionais, onde é refém da angústia, do risco de trabalhar com centenas e até de milhares de presos. Mas, fora dos muros dos presídios o agente continua sendo refém da mesma angústia.

Para um agente penitenciário, o perigo sempre está à espreita, afinal ele também é refém fora do local de trabalho, seja no caminho para casa, nos bancos, no supermercado ou nos momentos de lazer com a família.

Ser agente penitenciário é colocar a vida em risco 24 horas por dia, 365 dias no ano. É viver se equilibrando na fina linha do destino onde de um lado está a vida e do outro...

Era um dia comum, um dia, como outro qualquer. De madrugada, ele sai para o trabalho, de onde retornará apenas no início da noite.

Antes de sair de casa, beija sua esposa e os filhos levemente, para não acordá-los. E parte.

Não caminha nem por uma quadra quando uma moto com duas pessoas passa devagar.

Ao ver os olhos do carona ele sente seu sangue gelar.

Não sabe o que pensar, tampouco tem noção do que fazer.

De repente um calafrio sobe pela sua espinha deixando eriçados todos os pelos do seu corpo. Seus batimentos cardíacos aumentam de tal maneira que parece que o seu coração irá sair pela boca.

Sabe que há algo errado, já sentiu isso antes, e a sensação não é boa, algo está para acontecer. Algo muito ruim.

Logo à frente, o motociclista retorna. Ao ver tal atitude ele pensa em correr, mas sabe que não tem para onde correr. Procura esconder o rosto.

São cinco da manhã. A rua está praticamente deserta, não há ninguém além dele e das pessoas da motocicleta. Ele sabe que, se tentar voltar para a casa, poderá colocar a vida dos seus entes queridos em risco, então resolve continuar o seu caminho. Como se nada de anormal estivesse acontecendo.

O motociclista passa por ele bem devagar. Por mais que tente evitar, a troca de olhares é evidente, e mais uma vez ele sente a espinha gelar.

Sem alternativas, o agente continua o seu caminho sem sequer olhar para trás.

Ele anda dez, vinte, trinta metros e tudo parece ter voltado ao normal,

Aos poucos ele vai se acalmando. Logo, seus batimentos cardíacos também vão desacelerando.

O pior já passou, pensa.

Aliviado, crê que tudo não passou de má impressão, do resultado de anos vivendo no limite do stress por ameaças e terrorismo psicológico dentro e fora do local de trabalho, por várias tragédias ocorridas com companheiros de trabalho que ficaram marcadas em sua memória.

Então, uma pessoa lhe chama pelo nome.

Ao virar-se, vê novamente aquele olhar, mas desta vez este olhar não lhe causa frio na espinha ou qualquer tipo de sensação pelo corpo.

Não há tempo, pois o agente é alvejado por vários tiros de forma fria e covarde. Acusado de pecados nunca realizados, condenado por crimes nunca cometidos.

Essa história não é ficção. Anualmente, vários profissionais do sistema prisional do país vivem esta situação e poucos sobrevivem para contar a história. A grande maioria é assassinada fria e brutalmente ao ser reconhecida como parte do quadro de funcionários do sistema penitenciário em qualquer lugar que estejam. Pessoas marcadas pelo simples fato de exercerem uma profissão.

Pessoas que brutalmente se transformam em mais uma nota no obituário, pelo simples fato de serem agentes penitenciários.


Marc Souza

Escritor

Diretor Sifuspesp