Veridiana Dirienzo

Educadora Social e Psicanalista
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Por Veridiana Dirienzo

Vivemos sem sombra de dúvida um dos momentos mais difíceis dos últimos tempos. A pandemia evidenciou as fragilidades do nosso mundo e das nossas relações, fomos  obrigados a pensar que a barreira do “eu” e o “outro” é perpassado pela coletividade.

Um vírus silencioso, que não sabemos como vai se manifestar no nosso corpo e também no corpo do outro, mostra  que não temos o controle de tudo e que somos grãos de areia compondo o universo. Isso se apresenta na máxima dureza: o quão frágeis somos perante a vida e a morte.

Em contrapartida, também nos deparamos com a importância do coletivo, nossas ações estão entrelaçadas, o que pode ser assustador. Isso é a base para pensar que, nesse momento único, a pandemia apresenta para nós, tanto os trabalhadores do sistema prisional como detentos que compõem um coletivo, de funções diferentes, mas da necessidade do cuidado mútuo.

Em posicionamento corajoso e de extrema cautela com o retorno das visitas, o sindicato insere no debate questões de grande relevância, sendo que a principal delas é que os muros que separam a penitenciária da sociedade são porosos. Os acontecimentos que atingem os trabalhadores e detentos podem ser de natureza diferente, mas todos necessitam de muitos cuidados e isso não pode ser considerado invisível. A invisibilidade na qual a “cadeia” comumente é conhecida é pauta de todos.

A posição do sindicato fala de problemas compartilhados por todo o sistema penitenciário:  fala do déficit de funcionários; da falta de estruturas das penitenciárias que sofrem as superlotações; de doenças infecto contagiosas como a hepatite C e tuberculose que, se na sociedade estão sob controle, nas penitenciárias são problemas sérios e endêmicos, atingindo todas as pessoas que  lá trabalham ou estão sob sentença, assim como atinge  seus familiares e pessoas da sua convivência. 

Fala de um sistema público de saúde utilizado para tratar a COVID que é falho, e não porque não existam profissionais dedicados a esse ofício. É falho porque esses profissionais precisam de estrutura para atender com qualidade. E é sabido também que um tratamento adequado para a COVID é muitas vezes determinante para a cura da doença. Cito aqui o cacique de uma tribo indígena que morreu depois de 3 dias à espera de um leito de U.T.I, enquanto isso os representantes políticos com tratamento adequado sobreviveram à doença.

Nesse sentido, trabalhadores e detentos estão a mercê de um sistema de saúde que já não  supre a necessidade do cuidado adequado com outras doenças, e com a COVID essa situação é explicitada. Fala que, se jumbos foram barrados, eles também dizem de muitos itens pessoais para o cuidado pessoal do detento não são fornecidos, deixando essa função na mão das famílias, situação análoga com a realidade de muitos trabalhadores do sistema que tiraram de seu salário para comprar EPIs para o trabalho na pandemia.

Em seu último vídeo sobre as questões da volta da visitas nas unidades, o presidente do SIFUSPESP, Fábio Jabá, afirma que vidas importam, salvar vidas é o que importa.

Isso fala de que qualidade de vida estamos falando, de que processo de preservação de todas as pessoas envolvidas no sistema prisional possam acontecer de forma humana e transparente. 

Não podemos ficar cegos perante as aflições de todas as pessoas que compõem o sistema prisional. A luta do sindicato por condições melhores de trabalho mostra que também é preciso  falar de melhores condições para os detentos. Mais do que nunca, nossas bandeiras de luta entre os que estão do lado de dentro e fora das grades são conjuntas.

Veridiana Dirienzo é educadora social e psicanalista