Veridiana Dirienzo

Educadora Social e Psicanalista
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Por Veridiana Dirienzo

No último sábado (27), não à toa às 18:30, o Sifuspesp iniciava sua live com o tema “ Mulheres e Ativismo Político”. É  interessante citar que o horário pensado reflete os temas que foram abordados durante a transmissão. 

Pensar em um horário em que as mulheres possam participar e assistir a live passa por pensar por como se dividem os afazeres e o acúmulo de trabalho das mulheres trabalhadoras, que para além de trabalharem fora, cuidam de suas casas, seus filhos e muitas ainda estudam.

A tripla, muitas vezes quádrupla jornada de trabalho, reflete diretamente nas formas de acesso aos espaços políticos e então é preciso desmistificar alguns conceitos que temos como comuns, naturais no nosso dia a dia.

O primeiro é sobre o espaço público e política. Estar na política é poder estar presente no espaços de decisão, seja nos movimentos sociais, sindicatos ou partidos políticos que pensem mudanças estruturais na sociedade - mudanças que dizem respeito às  necessidades de um grupo com questões específicas sobre a mulher trabalhadora.

Existe um desafio grande já colocado, que é como criar mecanismos de acesso para que mulheres trabalhadoras possam participar de atividades públicas/políticas, como criação  de espaços compartilhados. Um exemplo disso é que a divisão de tarefas com seus companheiros/as sejam entendidas como pressuposto da dinâmica da casa, assim como  cuidar do filhos,  lavar, cozinhar, passar. 

É preciso desconstruir a ideia de que a mulher é feita para a manutenção do espaço privado e que os homens para a manutenção do espaço público, o que resulta em políticas pensadas para homens.

Como é possível avançar com políticas para mulheres existindo poucas mulheres pensando política e a pergunta é o porquê. A razão está na pouca possibilidade de abertura, escuta, ocupação de lugares e sistematização das problemáticas enfrentadas nas diferentes realidades das mulheres trabalhadoras, como Érica, trabalhadora do sistema penitenciário, e Luciene, trabalhadora da rede municipal de ensino, debatedoras da live de sábado.

Como trabalhadoras, existem pautas convergentes, mas também de agravamento de realidades. É essencial pensar que o recorte de gênero está estritamente ligado ao recorde de raça.

Mulheres negras são, sem sombra de dúvida, as mais atingidas nas políticas de exclusão, o que evidencia um longo debate que precisa ser feito sobre a intrínseca relação do patriarcado e os mecanismos de opressão de raça e gênero.  

O debate está longe de ser algo único e fragmentado. O patriarcado cria uma série de exclusões em cadeia e no Brasil as expressões violentas do patriarcado acontecem de forma muito evidente: o grande número de mulheres negras desempregadas ou que ocupam postos de trabalho precarizados evidencia o processo da falta de acessos, que é a base da política de exclusão e violência de um sistema de pouco ou quase nenhum acesso à participação e ocupação de lugares sociais, que não sejam os papéis de invisibilidade da manutenção social opressora.

Desconstruir a forma masculina de pensar as relações é uma tarefa de todos e o sindicato vem trabalhando no sentido de pensar junto espaços para a participação e ocupação de lugares por mulheres.

Essa tarefa não é simples, como lembrado pelas participantes. Mulheres também podem reproduzir os mesmo mecanismos de opressão da sociedade “pensada por e para homens”.  Falamos então de uma tarefa atenciosa de mulheres e homens que repensam uma nova forma de organização do seu estar no mundo, da sua singularidade, necessidades e vontades.

É dever ético e político do sindicato criar e manter espaços para novas realidades de ocupação que passam questões econômicas e também, não menos importantes, de representatividade na construção de locais  de trabalho mais democráticos, plurais e que reflitam a realidade e necessidade de sua base.

Veridiana Dirienzo é educadora social e psicanalista

Assista o vídeo "Mulheres e Ativismo Político"