Veridiana Dirienzo

Educadora Social e Psicanalista
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Por Veridiana Dirienzo

 

De acordo com o dicionário, as definições para a palavra empatia são:

Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende etc.[Psicologia] Identificação de um sujeito com outro; quando alguém, através de suas próprias especulações ou sensações, se coloca no lugar de outra pessoa, tentando entendê-la.

A palavra empatia também se estende ao contexto social, sendo usada como:

Compreensão do "Eu" social a partir de três recursos: enxergar-se de acordo com a opinião de outra pessoa; enxergar os outros de acordo com a opinião de outra pessoa; enxergar os outros de acordo com a opinião deles próprios.

É essencial a reflexão do significado da  palavra empatia nos tempos de pandemia, seu significado não se aplica somente a como eu posso me enxergar sendo o outro, mas também como eu enxergo a minha presença nas relações no mundo, que impactos a minha forma de agir pode refletir de forma objetiva na vida das pessoas, ou seja, compreender a dor do outro, mesmo que esta mesma dor não nos pertença nas mesmas dimensões. 

De forma imaginária é como se todos, mais do que nunca, precisássemos um dos outros: da atenção, cuidado que não vale só para o meu e de quem está comigo, e sim  em prol de um mundo inteiro. Isso vai além dos nossos pequenos círculos. Podemos dizer que queremos proteger nossas famílias da pandemia, mas como protegeremos nossas famílias se não protegermos as outras famílias - aquelas que não conhecemos, ou talvez até que tenhamos desafetos - o mesmo vale para nossos amigos e os nossos não tão amigos. Nosso poder de simbolizar o que é  pertencente ao mundo e que eu não conheço é urgente Isso quer dizer que é preciso entender que para além de nossos mundos existem outros e que o nosso mundo está conectado a estes mundos. Isto também é globalização.

O coronavírus é uma doença que  não pode ser pensada só sob aspecto médico. Ela é uma doença que modifica a forma como entendemos a nossa forma de viver e se relacionar. Só é possível viver em tempos de pandemia se o cuidado com a vida for exaltado.

Para os profissionais dos cárceres, a morte sempre fez parte de um cotidiano muito cruel. Trabalhar e lidar com a morte e a doença não é fácil. Muitas vezes fazer uma certa recusa da realidade é uma necessidade para continuar sobrevivendo no meio de tanta dor.

Alguns profissionais podem dizer que são preparados para não misturarem questões pessoais com as questões profissionais. A ideia que somos imunes a dor pode trazer danos internos e externos.

Os externos acontecem porque podemos começar a acreditar que sendo a morte algo tão comum e rotineiro, devemos trabalhar com ela - em tempos de pandemia, da mesma forma que antes. A verdade é que muitas outras doenças já circulam nos cárceres antes da chegada da COVID-19. Mas o que devemos fazer quando existe algo que conecta os muros da prisão com mundo, um vírus invisível, que pouco se sabe dele? Tirando o fato de ser extremamente contagioso e muitas vezes mortal, como ignorar essa realidade?  E como trabalhar com essa realidade que não seja na ordem no “não existe”  ou “não vai acontecer comigo”, uma vez que estamos mais do que nunca conectados?  Como eu me protejo e exijo me proteger, não ignorando as mortes e adoecimentos por  que vejo?

Internamente - no nosso mundo íntimo - é possível que a recusa de  realidade nos distancie das dores reais do mundo e das nossas próprias dores. Olhar para outro sempre é um reflexo de olhar para nós mesmos. Para onde vai o nosso medo e a dor quando olhamos para nossos colegas de trabalho, amigos, familiares e detentos, doentes, ou o temor de estar doente?

Olhando o outro eu reconheço o diferente ao também olhar para mim.

Veridiana Dirienzo é educadora social e psicanalista