Veridiana Dirienzo

Educadora Social e Psicanalista
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O SIFUSPESP ouviu profissionais da saúde, enfermeiros de diferentes unidades de SP, para entender como lidam com a angústia da reclusão, o medo da doença e da morte que está  presente no cotidiano de trabalho destes servidores

 

Por Veridiana Dirienzo 

Os dias de hoje nos fazem pensar num assunto que muitas vezes negamos a existência, mesmo que faça parte da vida desde o dia do nascimento: a morte, experiência que nenhum de nós conseguirá fugir, que sempre será tabu e dor e na sociedade ocidental.

Em 2020, além da experiência do pensar na morte e na doença como temáticas do cotidiano, existe outra questão central que é a da reclusão. Vivemos um período em que é preciso parar para viver, ou melhor, fazer o essencial para continuar vivendo. 

Conviver com pessoas em situação de reclusão, doentes ou que possam vir a morrer é o cotidiano dos profissionais da área da saúde do cárcere.Nesses tempos de pandemia, é impossível não pensar nos profissionais de saúde que trabalham nas penitenciárias.

Pensando nisso, o SIFUSPESP ouviu dois profissionais da saúde, enfermeiros de diferentes unidades de SP, para entender como lidam com a angústia da reclusão, o medo da doença e da morte que está  presente no cotidiano de trabalho destes servidores. 

No pensar psicanalítico, a angústia está relacionada à espera, ao anseio do sonho, ou seja, à tensão de perder algo ou que se receia perder. Medo e angústia estão em um emaranhado - o medo está na esfera do real, angústias nas “coisas que criamos”. 

O que separa o campo do medo do campo da realidade na nossa imaginação? Alguém saberia separar o que é medo e o que é angústia em tempos de pandemia? Tempos como estes mostram como são difíceis esse discernimento.

Escutando os dois profissionais da saúde, Fernando, da Penitenciária de Valparaíso, e Flávia, da Penitenciária II de Sorocaba, em meio a tantos sentimentos conturbados que o momento evoca, foi possível desemaranhar alguns problemas subjetivos e objetivos que os profissionais da saúde enfrentam.

A pandemia do COVID-19 trouxe à sociedade questões que o sistema prisional enfrenta há muito tempo, como Fernando e Flávia apontam, sobre “mini pandemias” nas cadeias, sejam de tuberculose à conjuntivite. 

Com a superpopulação, a questão do controle de epidemias precisa ser pensado com atenção, exige que profissionais da saúde estejam sempre em diálogo com a suas coordenações e com a segurança. “A saúde e a segurança precisam pensar juntas, e a ter a valorização deste trabalho em conjunto com as diretorias, e isso não acontece em todos os espaços”, lembra Fernando.

Ainda na linha da valorização dos profissionais da saúde, é preciso que o diálogo esteja atento às demandas que importam a todos os setores da penitenciária.A falta de materiais de segurança ao profissionais da saúde não afeta somente quem está nas unidades.  

“Funcionamos como uma mini cidade. Para que tudo funcione bem, os direitos precisam estar garantidos para todos os trabalhadores do sistema prisional e para os apenados”, diz o presidente da SIFUSPESP, Fábio Jabá. 

Flávia ressalta a importância do olhar atento aquele que recebe o tratamento de saúde nas unidades prisionais. “É preciso que os profissionais tenham o tempo necessário para realizar seu trabalho e de salvar vidas sempre que possível”.  A enfermeira deixa claro a frustração de não poder salvar uma vida, ainda mais quando acontece por falta de equipamentos e locomoção necessárias. 

Para os entrevistados, existe um denominador comum: o fortalecimento da saúde do sistema prisional está na união dos setores saúde e segurança, coordenadorias, e na condução feita pela Secretaria de Administração Penitenciária. 

Por isso, a saúde precisa da valorização como um pilar de sustentação do sistema prisional, defende o sindicato, e a pandemia, e todo o trabalho e informações que os profissionais da saúde têm demonstrado, explicitam isso. Saúde não é um assunto por ala, e sim para informação cotidiana e comum a todos.

Sobre como cada um desses profissionais lida quando a pergunta é sobre morte, a angústia de ser contaminado por doenças infecto contagiosas, algumas letais, são sentimentos presentes no cotidiano independentemente do COVID-19.  

Fernando, que trabalha também na docência, fala do preparo dos profissionais desde o começo, “para a solidariedade, a empatia, estar na linha de frente e saber que ser da saúde é fazer uma opção por cuidar do outro acima de tudo, o que é difícil. Exige renúncia e coragem”. 

Flávia precisou cuidar da parte psíquica para seguir em frente, e assim como Fernando, diz que “é preciso de muita coragem. É difícil e mesmo assim é possível fazer com carinho e dedicação. A vida acontece, e quando não dá, que a morte seja da forma mais leve, o mais leve possível para aqueles que morrem sozinhos”. 

Com todas as dificuldades, encontradas em maior ou menor grau nas unidades prisionais, um grupo significativo de enfermeiros se mobilizam trocando informações por Whatsapp sobre diferentes estratégias de combate a pandemia no sistema prisional, relata Fernando. 

Como os temas debatidos aqui são todos de uma forma ou de outra conversados por toda a família penitenciária, que esse momento de dor possa proporcionar não só maior visibilidade da categoria, como defende o SIFUSPESP. Mas que os problemas e angústias, que não pertencem só aos servidores e detentos, assim como a morte é uma certeza, lembremos das palavras de Flávia “a vida acontece, então, que agora seja da melhor forma possível”. 

Veridiana Dirienzo é educadora social e psicanalista