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Por Paulo Francis Jr da AVL e colunista semanal do jornal Integração

Estive na cidade de Panorama. Por labutar na área de segurança, como agente penitenciário, fui acompanhar um detento para júri. No plenário do fórum, sentei-me próximo ao réu. Para quem vai uma vez assistir estas coisas, é muito interessante. No entanto, quando isso se repete ao longo de anos, a mente se distrai; tudo fica cansativo e quase nem damos conta do que está sendo debatido. Tudo transcorria da maneira de sempre: as argumentações do juiz, da promotoria e chegou o momento da defesa. A exposição do advogado me chamou a atenção. Entusiasmava!

Era um sujeito franzino com trajes simples, de aparência bem humilde. Usava um terno cinza-claro xadrez meio amarrotado, com camisa azul calcinha (clara), uma gravata roxa, calça preta com a barra mal dobrada cobrindo quase todo o sapato marrom. As roupas me lembraram aqueles tão comuns e conhecidos pastores modestos de pequenas igrejas antigas da periferia, que funcionavam com uma caixa de som na porta ou auto-falante. Na minha natureza falha, vendo o jeito simplório do defensor, pensei comigo: "Ihhh... Desta vez o detento vai ser condenado!" Mas, sempre tem um "mas". E que "mas!"

Não dá para relatar neste espaço como tudo transcorreu. O que me lembro com clareza foi que, no ato que lhe foi dada a palavra, o advogado começou com saudações e elogios a todos que estavam naquele plenário, inclusive aos espectadores. Neste momento, já cativou a platéia! De maneira bem séria, olhando firme nos olhos das pessoas, balançando a cabeça afirmativamente, disparou: "Me envaideço por estar aqui." Dirigindo-se ao promotor que havia sido seu professor na faculdade, esclareceu: "Foi através de Vossa Excelência que consegui chegar aonde estou hoje. Vindo de uma família simples, humilde, de Barreiras na Bahia, com fome, sem ter o que comer às vezes, ouvia Vossa Excelência orientar na sala de aula: 'Nunca desista dos teus sonhos!'" Enquanto o advogado discursava parecia que eu estava vendo um filme americano na Netflix. A explanação tinha entonação e suspense. Me arrepiei! Era uma mistura de profundo sentimento e sabedoria; palavras fortes e bem colocadas. Os observadores se emudeceram. Referiu-se ao júri enfatizando não a inocência do réu; reiterou, sim, a forma justa com que o acusado deveria ser julgado, sempre concordando que houve o delito. E bradou: "Só poderíamos julgá-lo naquilo que ele fez. Esse é o poder da lei!"

O simplório jurista conhecia o corpo de jurados. Citou cada membro e as suas profissões! Enalteceu o valor que tinham na sociedade. Disse que: "da mesma forma que eram pessoas merecedoras de estar ali para julgar alguém, deveriam fazê-lo de modo correto e equilibrado, pois naquele lugar - apontou fixo para o réu - poderia estar um filho ou um ente querido de cada um já que todos estão sujeitos ao erro!" Em dado momento, parou diante de uma jurada e perguntou: "A senhora, Dona Fulana, como renomada cidadã, bem conhecida por aqui, que preza e ajuda os seus semelhantes, vai ao Abrigo de Idosos, ajuda a APAE da cidade, a senhora não acha justo dar uma oportunidade a este réu? Porque todos sabem que ele agiu por causa da traição que sofreu." Andando, gesticulando, ele disse: "A sua atitude foi em decorrência da traição!!!" Voltou-se aos demais jurados: "Vocês sabem quais são as pessoas que conversam com suas esposas e esposos no dia-a-dia? O que dizem e fazem? Essa é a prova: todos nós podemos passar por isso!!!"

O promotor não se comoveu e pediu a condenação. Estipulou de 6 a 20 anos de prisão "pois houve a intenção de matar. Este cidadão adentrou a casa da mulher e disparou seu revólver. Se o mesmo não quisesse matar, atiraria do lado de fora." Aquele singelo advogado, de roupa démodé, interrompeu e, de novo, ergueu a voz: "Discordo de V. Excelência! Meu cliente, como também afirmaram as testemunhas, não apontou a arma para a cabeça da vítima. Ele não teve a intenção de assassinar ninguém! Ouça: o arrependimento veio antes da vontade de matar!!! As testemunhas disseram que ele atirou no braço da mulher." Por unanimidade, o réu foi posto em liberdade...