Marc Souza

Agente penitenciário, escritor e Diretor do Sifuspesp
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Dias desses em uma conversa com amigos foi me pedido para definir em uma palavra o ambiente prisional, não o sistema prisional e sim o ambiente prisional.  
Ao citar ambiente prisional eles deixaram claro que não queriam que eu o definisse a partir da superpopulação carcerária, da violência ou agressões sofridas, da falta constante de funcionários, tampouco dos anos sem aumento salarial ou valorização profissional.


A pergunta tinha outra intenção. A intenção era a de saber, como, após quase quinze anos de efetivo exercício na carreira de Agente de Segurança Penitenciária, eu definia o ambiente prisional.


Confesso que tive dúvidas.
Nunca tinha pensado o sistema prisional desta forma, nunca tinha pensado o sistema prisional como ambiente, tampouco, como defini-lo em apenas uma palavra.  
Neste momento titubeei.


Depois de anos escrevendo quase que mensalmente sobre o sistema penitenciário. Expondo mazelas, apresentando idéias e procurando criar pensadores do sistema fui surpreendido por uma pergunta ao qual, talvez, não poderia responder.  


Afinal, sempre pensei no sistema prisional de forma ampla, um sistema que anseia por mudanças, seja através de investimentos, seja através de capacitação e organização. Mas nunca havia pensado no ambiente prisional de forma mais minimalista, mais intima.  


Então, pensei um pouco mais sobre a pergunta, talvez, ela não fosse assim tão difícil de responder. Vivo o ambiente há muitos anos, trabalhei em diversas unidades prisionais, de diversos tipos de segurança e de diferentes perfis de sentenciados.


Mesmo assim, confesso que demorei um pouco a responder. E, após alguns minutos de reflexão a única palavra que veio a minha mente foi: contradição.
O ambiente prisional é um ambiente marcado por contradições. Pois, ao mesmo tempo em que o ambiente prisional é palco das mais terríveis e inimagináveis situações de violência e terror, é também palco de humanidade e respeito.


Ao mesmo tempo em que é palco de sofrimento e de dor é palco de amizade e amor.
É controverso. É estranho. É irreal. Mas é a verdade.


Ao mesmo tempo em que se observa um sentimento de comunidade, de ajuda mutua, de partilha entre os que têm mais, para os que não têm, há a ameaça constante, a coação, a violência, velada ou não.


Ao mesmo tempo em que na oração pede-se o perdão, comete-se pecados contra os próprios irmãos.
O ambiente prisional é um ambiente surreal, daqueles localizados em outra dimensão onde a percepção da lógica é totalmente em vão. Um lugar ilógico, incoerente, contrastante, discordante e divergente. Um lugar jamais imaginado por qualquer cidadão comum.


O ambiente prisional é, definitivamente, um palco de contradições que geram constantes controversas e infinitas discussões.
 

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